Eu já vi aqueles olhos em algum lugar, só não consigo me lembrar de onde mas tenho certeza que já os vi. Eu estava distraído lendo um livro. Várias pessoas passavam por mim, umas caminhando, outras correndo, de vez em quando um cachorro vinha me cheirar. Crianças corriam para lá e para cá. Gil sempre me perguntou como eu conseguia me concentrar num lugar como aquele. Eu não sabia a resposta mas sempre gostei de ler em locais públicos. E dependendo do livro eu me teletransporto pra época, pra cena e não vejo ninguém à minha volta. Este dia estava assim, o livro me levou pra um lugar distante a muitos anos atrás, havia pessoas com roupas de época, homens de terno e gravata, mulheres com aqueles vestidos rodados, com seus chapéus coloridos e suas sombrinhas passavam por uma rua cheia de pedras, carroças com seus cavalheiros passavam fazendo barulho. Eu estava caminhando como se estivesse indo para algum encontro ou coisa parecida. Parei em frente a uma casa branca de 3 andares, a placa na porta informava que era uma hospedaria. Entrei, o mensageiro me sorriu como se já me conhecesse, o recepcionista me acenou. Acenei e segui o caminho, subi por uma escada de madeira. O corredor não tinha muita ventilação. As lâmpadas presas nas paredes mal iluminavam o andar. Subi mais um andar o corredor era igual ao anterior o que diferenciava era o grande número dois que indicava o andar. Parei em frente à porta 202...
Ao tocar a sineta uma jovem negra aparentando ter entre 14 ou 15 anos me atendeu, falou algo confuso, que não ouvi nem consegui entender. E me encaminhou pra a sala, falou alguma coisa e saiu. A sala era bem decorada não parecia que estavam ali de passagem, mas que moravam ou eram donos do lugar. Alguns quadros nas paredes, livros em uma estante, um tapete bonito, sofás confortáveis, cortinas no tom de bege, uma mesa de chá e uma cadeira de balanço próximo à janela. Mas o que mais me chamou a atenção foi um retrato na parede, nele havia duas pessoas, uma jovem moça e um rapaz, ambos negros. Seriam os pais da jovem que me atendeu, ou seus irmãos? Após alguns minutos esperando apareceu a mocinha e uma senhora já idosa com um sorriso grande no rosto, imediatamente fui até ela e lhe dei um forte abraço. Seus olhos eram marcantes e estavam úmidos, seu sorriso era encantador e seu abraço me acolhia, como se estivesse recebendo alguém da família que a muito não via. Sentamos no sofá, ela estava segurando minhas mãos e com os olhos ainda úmidos me falava da saudade que tinha, falava de seu esposo, dos filhos, do netinho que estava por chegar. Não sei explicar o meu sentimento. Certamente eu a conhecia, certamente eu era da família mas não me lembrava. Falei algo, até então eu não conseguia me ver ou ouvir, me levantei e caminhei pela casa. Passei por um corredor cheio de quadros com fotos de pessoas da família. Abri uma porta, era o banheiro, fiz minhas necessidades e ao lavar as mãos pude me olhar no espelho. E então me vi...
No espelho refletia a imagem de uma senhora negra de cabelos branquinhos, pele enrugada pelo tempo, a reconheci em uma das fotografias. Estava sentada embaixo de uma arvore ao lado de duas crianças, só que bem mais nova, mas o olhar era o mesmo. Ao voltar a sala, ela parou em frente a estante em que estava essa fotografia, pegou e comentou algo com a outra senhora que estava, agora, sentada em sua cadeira de balanço olhando pela janela, foi até ela e assentou sua mão em seu ombro. Nessa hora voltei ao parque, Gil tinha chegado de sua corrida e eu não o tinha percebido. Disse que tinha me chamado mas minha atenção ao livro não me tinha deixado perceber. Por isso ela colocou a mão em meu ombro e imediatamente voltei. Quem será que eram aquelas pessoas? Elas me eram tão reais e não tinha nada a ver com o livro que estava lendo. Algo dentro de mim me dizia que conhecia aquele olhar e isso não era estranho. No caminho pra casa falei para Gil o que tinha acontecido, ela disse que deve ter sido uma experiência que tive em outra vida uma forma de djavu. Eu não acreditava nisso. Mas fiquei tocado com o que aconteceu. Na semana seguinte nós tivemos um almoço na casa de nossa mãe, todo fim do ano nossa família se reúne para comemorar a passagem do ano e agradecer pelo ano que passou. Vem gente de todo lugar. Nossa família é bem grande. E dentre meus tios há um que sempre tive um carinho especial. Ele sempre foi mais apegado comigo, me levava em viagens, em passeios a cavalo, era um cara muito especial. Quando ele chegou com sua parte da família foi uma alegria tamanha trouxe os filhos, as filhas, os netos e abraçou minha mãe e ao se aproximar de mim para me abraçar foi que tive a certeza de quem era aquele olhar. Fim!