segunda-feira, 28 de setembro de 2015

SONETO DE AMOR A CAMA

Ah! quando te vejo,
Tenho vontade de te agarrar
De te prender e não mais largar.

Ah! quando te vejo,
Não tenho forças para andar
sinto que falta-me o ar.

Vou me jogar em você
Nem que seja só por essa noite
Te terei.

Vem abraçar-me com teus lençóis
Afaga-me com teu cobertor
Tá tão frio sem teu calor.

Viajarei contigo até os locais 
Mais escondidos do meu sonho
Abraçado a ti serei um poeta
Serei Camões, serei Rogério ou Dionísio

Leva-me pelos Reinos
Conduza-me aos meus anseios
Dorme comigo esta noite
E terei uma noite deslumbrante.


Antonio Oliveira

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

QUER CASAR COMIGO?


Vamos hoje a um restaurante
Prepare-se e coloque os teus saltos altos
Tenho uma surpresa excelente
Vamos a um restaurante, bem distante aquela da cidade
Pois lá ninguém nos incomoda
Me sinto ansioso em dizer-te algo
Mas não consigo me controlar desta vontade
Já agora aqui, me sinto preocupado
Prometo falar-te o que sinto
Não preciso elaborar discurso complexo
Embora palavras fogem no momento
Mas vou tentar me concentrar, vou tentar caprichar
Lembras-te quando dizia que só te via como amiga?
Quando lembro, me faz sorrir
Este mundo está cheio de mistérios
Hoje estamos felizes juntos
Pois daqui a uma semana faremos 6 anos de namoro
Antecedemos a data com presentes e palavras
Finalmente estamos juntos como sempre queríamos
Finalmente estamos marcando passos lindos
É bom estar contigo aqui sentado
Vou tentar me concentrar, vou tentar caprichar
Hoje seus olhos brilham demais
Parecendo estrelas cadentes
Não precisa mostrar olhar preocupante
Quero estar contigo em todos os instantes
Tenho um sonho, o meu casamento
Hoje estou seguro do que quero
Já imagino você comigo se casando
Espero que assim seja
Eu aguardando perto do Padre
Vendo você linda demais a entrar pela porta da igreja
Juntos será uma só vida
Case-se comigo minha querida!
Case-se...
AUTOR: KIMBUNGO DAVID ANTÓNIO

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A HORA ÍNTIMA

Quem pagará o enterro e as flores 
Se eu me morrer de amores? 
Quem, dentre amigos, tão amigo 
Para estar no caixão comigo? 
Quem, em meio ao funeral 
Dirá de mim: - Nunca fez mal... 
Quem, bêbedo, chorará em voz alta 
De não me ter trazido nada? 
Quem virá despetalar pétalas 
No meu túmulo de poeta? 
Quem jogará timidamente 
Na terra um grão de semente? 
Quem elevará o olhar covarde 
Até a estrela da tarde? 
Quem me dirá palavras mágicas 
Capazes de empalidecer o mármore? 
Quem, oculta em véus escuros 
Se crucificará nos muros? 
Quem, macerada de desgosto 
Sorrirá: - Rei morto, rei posto... 
Quantas, debruçadas sobre o báratro 
Sentirão as dores do parto? 
Qual a que, branca de receio 
Tocará o botão do seio? 
Quem, louca, se jogará de bruços 
A soluçar tantos soluços 
Que há de despertar receios? 
Quantos, os maxilares contraídos 
O sangue a pulsar nas cicatrizes 
Dirão: - Foi um doido amigo... 
Quem, criança, olhando a terra 
Ao ver movimentar-se um verme 
Observará um ar de critério? 
Quem, em circunstância oficial 
Há de propor meu pedestal? 
Quais os que, vindos da montanha 
Terão circunspecção tamanha 
Que eu hei de rir branco de cal? 
Qual a que, o rosto sulcado de vento 
Lançará um punhado de sal 
Na minha cova de cimento? 
Quem cantará canções de amigo 
No dia do meu funeral? 
Qual a que não estará presente 
Por motivo circunstancial? 
Quem cravará no seio duro 
Uma lâmina enferrujada? 
Quem, em seu verbo inconsútil 
Há de orar: - Deus o tenha em sua guarda. 
Qual o amigo que a sós consigo 
Pensará: - Não há de ser nada... 
Quem será a estranha figura 
A um tronco de árvore encostada 
Com um olhar frio e um ar de dúvida? 
Quem se abraçará comigo 
Que terá de ser arrancada? 
Quem vai pagar o enterro e as flores 
Se eu me morrer de amores?


VINÍCIUS DE MORAES

sábado, 19 de setembro de 2015

VOCÊ




Não há nada nesse mundo que eu queira
mais Não poderia desejar pra mim melhor homem 
Meu coração pula do peito quando você está perto demais 
Minhas pernas tremem, as palavras somem 

Fico boba, perco o fôlego, perco a conta 
De o quanto eu te amo, do quanto você me faz feliz 
Como seu olhar me deixa tonta 
Como você pode ser tudo o que eu sempre quis? 

Meu amor não rima bem 
Espero que isso não seja um problema 
É o mais belo sentimento que se tem 
Mas não consigo descrevê-lo em um só poema. 

Precisaria de outros milhares de versos 
Pra conseguir expressar meus sentimentos 
Já que eles estão todos dispersos 
E você domina todos os meus pensamentos. 

Colocar em palavras as muitas sensações 
Tudo de bom que nós passamos juntos 
Estamos falando de dois corações 
E de um amor maior que tudo.

Mariana Siqueira



quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A LÍNGUA MÃE

Não sinto o mesmo gosto nas palavras:
Oiseau e pássaro.
Embora elas tenham o mesmo sentido.
Será pelo gosto que vem de mãe? de língua mãe?
Seria porque eu não tenha amor pela língua
de Flaubert?
Mas eu tenho.
(Faço este registro
porque tenho a estupefação
de não sentir a mesma riqueza as
palavras oiseau e pássaro)
Penso que seja porque a palavra pássaro em
mim repercute a infância.
E oiseau não repercute.
Penso que a palavra pássaro carrega até hoje
nela o menino que ia de tarde pra
debaixo das árvores a ouvir os pássaros.
Nas folhas daquelas árvores não tinham oiseaux
Só tinha pássaros.
É o que me ocorre sobre língua mãe."

MANOEL DE BARROS Do livro: "O Fazedor de Amanhecer" de 2001.

domingo, 13 de setembro de 2015

Regras da Vida

Pesos e medidas
São coisas que usamos na vida
Pesamos nossos acertos
Medimos nosso erros.

Erramos mais que acertamos
Aprendemos com eles
Crescemos por eles.

Somos fortes!
Ou nos fazemos.
Fingimos
Fugimos

Sofremos.

Antonio Oliveira

sábado, 12 de setembro de 2015

PEDRA RETORCIDA

Durante algum tempo,
hesitei abrir aquela porta.


O sentido de toda cidade
estava atado, como um nó,
lá dentro. Talvez fosse
o que jamais procurasse:
o sentido das coisas
explicadas por trás das portas.


Algumas Ruas também 
hesitei atravessar.
Eram incansáveis e longas,
como as noites brincadas
lá fora, onde tudo mais cabia.


Em verdade,
nada procurava 
além de um pequeno gole
guardado ou esquecido 
por trás daquela porta verde:
sem trancas, maçanetas e levemente arranhada
com a dor de abri-la.


Os olhos esverdeados
acompanhavam a inquietação do vento
se infiltrando pela porta exilada
como quem fala: ó de casa!


(As Ruas atravessam o tempo não vencido).


Aquela porta que  hesitei abrir
largou mão de sua fronteira
e deu lugar a janelas
que me assombram pacientes
até que o frio as feche novamente.


Faz frio por detrás das portas retorcidas;
o outro nos decifra,
enquanto se esconde.


João de Moraes Filho

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

SERÁ UTOPIA?

TRABALHANDO DURANTE SÉCULOS
VIVEMOS EM BUSCA DO MELHOR
TENTANDO SER BOM EM TUDO
MOSTRAMOS NOSSO PIOR.

QUEREMOS MOSTRAR O QUE TEMOS
PASSAMOS POR CIMA DE TUDO
GANHAMOS E TAMBÉM PERDEMOS
NA FAMÍLIA OU NO MUNDO.

NO LUGAR DE DAR SEU MELHOR
PRA TENTAR AJUDAR QUEM PRECISA
UM ESFORÇO SERÁ ESSENCIAL
SE QUISER COMBATER ESSE MAL.

ESFORÇAR PRA DAR A QUEM
NA VIDA NÃO TEM NINGUÉM
VIVE SENTADO NA ESQUINA
PEDINDO SEM OLHAR A QUEM.

PROJETOS SERIAM CAPAZES
DESTAS VIDAS MUDAR
MAS COM TANTA CORRUPÇÃO
NÃO TEM COMO MELHORAR.

UM DIA EU ESPERO
ACABAR COM ESSE PROBLEMA
ALGUM HOMEM DE BEM
RESOLVER ESTE DILEMA

CANTAREI COM ALEGRIA
A ESTROFE DESSA MÚSICA
QUE DIZ COM HARMONIA
...FILHO TEU NÃO FOGE A LUTA".

ANTONIO OLIVEIRA


terça-feira, 8 de setembro de 2015

BUSCANDO A CRISTO

A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.
A vós, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lágrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.
A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, p'ra chamar-me
A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.

Gregório de Matos

VOO DE ANDORINHAS

Andorinhas voam em bando,
Perdida há uma só.
Habituam-se a dizer,
Que sozinha não faz verão.
Um só voo de andorinha
É a réplica da solidão.
Somente o voo coletivo
Alucinante e altivo
Sintetiza integração.
Entre montes e horizontes,
Da morte buscando vida,
Perdida voa uma só.

Muitas asas se agitam,
No anseio de ser feliz.
Junto à torre da matriz,
Ou sobre o teto dos galpões.
Num lenitivo de emoções,
Num caracol que se estiliza,
Neste adorno que simboliza,
A analogia da paz,
A beleza mais primaz.
Talvez busque-se o infinito
No vigor sereno e bonito
Para um romance de mil canções.

Ao findar a primavera,
Saudando outra estação
Surgem em arribação
Quebrando a monotonia
A formar a sinfonia
No painel desta versão.
Na magia da ilusão
Que consegue ser mais linda,
Nesta beleza infinda
São milhares de andorinhas,
Porque uma voando sozinha
Nunca, nunca faz verão.


MIGUEL ARNILDO GOMES

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

VIOLÕES QUE CHORAM...

Ah! plangentes violões dormentes, mornos,
Soluços ao luar, choros ao vento...
Tristes perfis, os mais vagos contornos,
Bocas murmurejantes de lamento.

Noites de além, remotas, que eu recordo,
Noites da solidão, noites remotas
Que nos azuis da Fantasia bordo,
Vou constelando de visões ignotas.

Sutis palpitações à luz da lua,
Anseio dos momentos mais saudosos,
Quando lá choram na deserta rua
As cordas vivas dos violões chorosos.

Quando os sons dos violões vão soluçando,
Quando os sons dos violões nas cordas gemem,
E vão dilacerando e deliciando,
Rasgando as almas que nas sombras tremem.

Harmonias que pungem, que laceram,
Dedos nervosos e ágeis que percorrem
Cordas e um mundo de dolências geram
Gemidos, prantos, que no espaço morrem...

E sons soturnos, suspiradas mágoas,
Mágoas amargas e melancolias,
No sussurro monótono das águas,
Noturnamente, entre ramagens frias.

Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

Tudo nas cordas dos violões ecoa
E vibra e se contorce no ar, convulso...
Tudo na noite, tudo clama e voa
Sob a febril agitação de um pulso.

Que esses violões nevoentos e tristonhos
São ilhas de degredo atroz, funéreo,
Para onde vão, fatigadas do sonho,
Almas que se abismaram no mistério.

Sons perdidos, nostálgicos, secretos,
Finas, diluídas, vaporosas brumas,
Longo desolamento dos inquietos
Navios a vagar à flor de espumas.

Oh! languidez, languidez infinita,
Nebulosas de sons e de queixumes,
Vibrado coração de ânsia esquisita
E de gritos felinos de ciúmes!

Que encantos acres nos vadios rotos
Quando em toscos violões, por lentas horas
Vibram, com a graça virgem dos garotos,
Um concerto de lágrimas sonoras!

Quando uma voz, em trêmulos, incerta,
Palpitando no espaço, ondula, ondeia,
E o canto sobe para a flor deserta,
Soturna e singular da lua cheia.

Quando as estrelas mágicas florescem,
E no silêncio astral da Imensidade
Por lagos encantados adormecem
As pálidas ninfeias da Saudade!

Como me embala toda essa pungência,
Essas lacerações como me embalam,
Como abrem asas brancas de clemência
As harmonias dos violões que falam!

Que graça ideal, amargamente triste,
Nos lânguidos bordões plangendo passa.
Quanta melancolia de anjo existe
Nas visões melodiosas dessa graça...

Que céu, que inferno, que profundo inferno,
Que ouros, que azuis, que lágrimas, que risos,
Quanto magoado sentimento eterno
Nesses ritmos trêmulos e indecisos...

Que anelos sexuais de monjas belas
Nas ciliciadas carnes tentadoras,
Vagando no recôndito das celas,
Por entre as ânsias dilaceradoras...

Quanta plebeia castidade obscura
Vegetando e morrendo sobre a lama,
Proliferando sobre a lama impura,
Como em perpétuos turbilhões de chama,

Que procissão sinistra de caveiras,
De espetros, pelas sombras mortas, mudas...
Que montanhas de dor, que cordilheiras
De agonias aspérrimas e agudas.

Véus neblinosos, longos, véus de viúvas
Enclausuradas nos ferais desterros,
Errando aos sóis, aos vendavais e às chuvas,
Sob abóbadas lúgubres de enterros:

Velhinhas quedas e velhinhos quedos,
Cegas, cegos, velhinhas e velhinhos,
Sepulcros vivos de senis segredos,
Eternamente a caminhar sozinhos;

E na expressão de quem se vai sorrindo,
Com as mãos bem juntas e com os pés bem juntos
E um lenço preto o queixo comprimindo,
Passam todos os lívidos defuntos...

E como que há histéricos espasmos
Na mão que esses violões agita, largos...
E o som sombrio é feito de sarcasmos
E de sonambulismos e letargos.

Fantasmas de galés de anos profundos
Na prisão celular atormentados,
Sentindo nos violões os velhos mundos
Da lembrança fiel de áureos passados;

Meigos perfis de tísicos dolentes
Que eu vi dentre os violões errar gemendo,
Prostituídos de outrora, nas serpentes
Dos vícios infernais desfalecendo;

Tipos intonsos, esgrouviados, tortos,
Das luas tardas sob o beijo níveo,
Para os enterros dos seus sonhos mortos
Nas queixas dos violões buscando alívio;

Corpos frágeis, quebrados, doloridos,
Frouxos, dormentes, adormidos, langues,
Na degenerescência dos vencidos
De toda a geração, todos os sangues;

Marinheiros que o mar tornou mais fortes,
Como que feitos de um poder extremo
Para vencer a convulsão das mortes,
Dos temporais o temporal supremo;

Veteranos de todas as campanhas,
Enrugados por fundas cicatrizes,
Procuram nos violões horas estranhas,
Vagos aromas, cândidos, felizes.

Ébrios antigos, vagabundos velhos,
Torvos despojos da miséria humana,
Têm nos violões secretos Evangelhos,
Toda a Bíblia fatal da dor insana.

Enxovalhados, tábidos palhaços
De carapuças, máscaras e gestos
Lentos e lassos, lúbricos, devassos,
Lembrando a florescência dos incestos;

Todas as ironias suspirantes
Que ondulam no ridículo das vidas,
Caricaturas tétricas e errantes
Dos malditos, dos réus, dos suicidas;

Toda essa labiríntica nevrose
Das virgens nos românticos enleios,
Os ocasos do Amor, toda a clorose
Que ocultamente lhes lacera os seios;

Toda a mórbida música plebeia
De requebros de fauno e ondas lascivas;
A langue, mole e morna melopeia
Das valsas alanceadas, convulsivas;

Tudo isso, num grotesco desconforme,
Em ais de dor, em contorções de açoites,
Revive nos violões, acorda e dorme
Através do luar das meias-noites!

Poesias Completas de Cruz e Sousa

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

O PREÇO DE UMA GUERRA

Tantos sonhos pra viver
Tantos caminhos por seguir
Tantas coisas por fazer
Tantos amigos pra curtir

Tantos livros para ler
Tantas escolas pra estudar
Tantos projetos por fazer
Tantas batalhas pra travar

Tantas brincadeiras pra brincar
Tantos beijos para dar
Tantos rostos acariciar
Tantas lágrimas pro chorar

Mas à frente tinha a Síria
Tinha a guerra, tinha o mar
Uma pena, era uma criancinha
Não sabia nadar.

Antonio Oliveira

PEÇO PAZ


Peço a paz 
e o silêncio 

A paz dos frutos 
e a música 
de suas sementes 
abertas ao vento 

Peço a paz 
e meus pulsos traçam na chuva 
um rosto e um pão 

Peço a paz 
silenciosamente 
a paz a madrugada em cada ovo aberto 
aos passos leves da morte 

A paz peço 
a paz apenas 
o repouso da luta no barro das mãos 
uma língua sensível ao sabor do vinho 
a paz clara 
a paz quotidiana 
dos actos que nos cobrem 
de lama e sol 

Peço a paz e o 
silêncio 

Casimiro de Brito, em "Jardins de Guerra" 

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O Bicho Homem

Que bicho é o homem, de onde ele veio para onde vai?
De onde ele veio para onde vai?
Onde é que entra, de onde é que sai?
Que raio lhe acende a chama da fúria
O que é que sobra da cesta básica de sua penúria
Que bicho é o homem, do que se enfeita que mão o ampara
No chão de enigmas em que se deita
Que bicho é o homem
Que mama no seio da reminiscência
E que embala a morte em seu devaneio
Que bicho é esse que carrega o fardo de uma dor medonha
Que sucumbe o fardo mas ainda sonha?
Que bicho vagueia na treva hedionda
Que pantera esguia será mais veloz do que a própria sombra?

O homem que tece as malhas da lei, que bicho é o homem
Que transforma em pêssego as fezes do rei?
Que bicho é o homem que ama e desama, que afaga e magoa
E que às vezes lembra um anjo em pessoa?
O homem que vai para a eternidade num saco de lixo
Que bicho é o homem de salário fixo?
Que bicho é o homem que trapaceia, que às vezes pensa
Que é mais brilhante do que a papa ceia?
Que bicho é esse que escreve as vogais das cinzas do pai?
De onde ele veio e para onde vai?
Que bicho é o homem que se interroga léguas de volúpia
Sonhos e utopias tudo se evapora
Que bicho é o homem de argila e colosso que lavra e semeia?
Mas só colhe insônias em lavoura alheia?
Os rastros do homem no vento ou na água são rastros de fera
Mas que bicho é esse que se dilacera?
O homem suplica, os deuses concedem, que bicho é o homem
Que sempre regressa às praias do Éden?
Que bicho é o homem que escreve poemas na aurora agônica
E depois acende a fogueira atômica?

Que bicho te oferta um ramo de rimas
E à sombra dos mortos semeia gemidos por sete Hiroximas?
Que bicho te espreita aos olhos dos becos
Onde os cães insones mastigam as sombras dos antigos donos?
Que bicho é o homem que rasteja e voa, que se ergue e cai?
De onde ele veio e para onde vai?
Que bicho é o homem, de onde ele veio e para onde vai?
Onde é que entra de onde é que sai?

Fernando Carvalho

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

POEMA

A palavra círculo
e a palavra bufa
e a palavra bomba
e a palavra cínica
a única
e a fundamental
são todas elas da mesma essência.
E a palavra essência,
como todas elas,
sofre essencialmente
deste mal: palavra.
Mas são todas belas,
belas e enganosas
— como a palavra rio
como a palavra rosa
E como a real.
Roberval Pereyr

VENCEDOR

Toma as espadas rútilas, guerreiro,
E a rutilância das espadas, toma
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração – estranho carniceiro!

Não podes?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma
Nenhum pôde domar o prisioneiro.

Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,

Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem...
E não pôde domá-lo, enfim, ninguém,
Que ninguém doma um coração de poeta!

Augusto dos Anjos